Mistérios do cara ou coroa

1) Modelo probabilístico (moeda justa)

Assuma uma moeda justa e lançamentos independentes.

Ilustração conceitual de limite (substitua por uma imagem do seu blog, se quiser).
Figura: A sorte está lançada.

Um lançamento

Espaço amostral:

\[\Omega=\{C,K\}\]

onde $C$ = cara, $K$ = coroa.

Como é justa:

\[P(C)=P(K)=\frac12.\]

2) Formalizando o cara-ou-coroa como v.a. Bernoulli

Defina, para o $i$-ésimo lançamento:

\[X_i= \begin{cases} 1, & \text{se deu cara}\\ 0, & \text{se deu coroa} \end{cases}\]

Assumindo moeda justa e independência:

\[X_i \sim \text{i.i.d. Bernoulli}(p),\quad p=\frac12.\]

Então:

\[\mathbb{E}[X_i]=p=\frac12, \qquad \mathrm{Var}(X_i)=p(1-p)=\frac14.\]

A proporção de caras em $n$ lançamentos é

\[\hat p_n=\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}X_i.\]

3) Vários lançamentos: contagem de caras e distribuição Binomial

Considere $n$ lançamentos independentes e defina a v.a.

\[X=\text{número de caras em }n\text{ lançamentos}.\]

Então:

\[X\sim \text{Binomial}(n,p),\quad p=\frac12.\]

A probabilidade de exatamente $k$ caras é:

\[P(X=k)=\binom{n}{k}p^k(1-p)^{n-k}.\]

Como $p=\frac12$:

\[P(X=k)=\binom{n}{k}\left(\frac12\right)^k\left(\frac12\right)^{n-k} =\binom{n}{k}\left(\frac12\right)^n =\frac{\binom{n}{k}}{2^n}.\]

Interpretação combinatória: há $2^n$ sequências equiprováveis; e $\binom{n}{k}$ delas têm exatamente $k$ caras.


4) Cálculos passo a passo (exemplos)

Exemplo A — $n=5$: probabilidade de sair exatamente $k=3$ caras

Seja $X$ o número de caras em $n=5$ lançamentos de uma moeda justa. Então $X\sim\mathrm{Bin}(5,\tfrac12)$ e:

\[P(X=3)=\binom{5}{3}\left(\frac12\right)^3\left(1-\frac12\right)^{5-3} =\binom{5}{3}\left(\frac12\right)^3\left(\frac12\right)^2 =\binom{5}{3}\left(\frac12\right)^5 =\frac{\binom{5}{3}}{2^5}.\]

Agora, calcule $\binom{5}{3}$:

\[\binom{5}{3}=\frac{5!}{3!\,(5-3)!}=\frac{5!}{3!\,2!}.\]

Expanda os fatoriais:

\[5!=5\cdot 4\cdot 3\cdot 2\cdot 1,\qquad 3!=3\cdot 2\cdot 1,\qquad 2!=2\cdot 1.\]

Substituindo:

\[\binom{5}{3} =\frac{5\cdot 4\cdot 3\cdot 2\cdot 1}{(3\cdot 2\cdot 1)\,(2\cdot 1)}.\]

Cancele o fator comum $(3\cdot 2\cdot 1)$:

\[\binom{5}{3} =\frac{5\cdot 4\;\cancel{(3\cdot 2\cdot 1)}}{\cancel{(3\cdot 2\cdot 1)}\,(2\cdot 1)} =\frac{5\cdot 4}{2\cdot 1}.\]

Efetue as operações:

\[\binom{5}{3}=\frac{20}{2}=10.\]

Agora calcule $2^5$:

\[2^5=2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2=32.\]

Substituindo em $P(X=3)$:

\[P(X=3)=\frac{\binom{5}{3}}{2^5}=\frac{10}{32}.\]

Simplifique a fração (dividindo por $2$):

\[\frac{10}{32}=\frac{10\div 2}{32\div 2}=\frac{5}{16}.\]

Converta para decimal:

\[\frac{5}{16} =\frac{50}{160} =0{,}3125.\]

Logo,

\[P(X=3)=\frac{10}{32}=\frac{5}{16}=0{,}3125.\]

Exemplo B — $n=3$: probabilidade de “pelo menos uma cara”

Defina o evento:

\[A=\{\text{pelo menos uma cara}\}.\]

Use o complementar:

\[A^c=\{\text{nenhuma cara}\}=\{\text{todas coroa}\}.\]

Como os lançamentos são independentes e $P(\text{coroa})=\frac12$:

\[P(A^c)=\left(\frac12\right)^3.\]

Calcule:

\[\left(\frac12\right)^3 =\frac12\cdot\frac12\cdot\frac12 =\frac{1\cdot 1\cdot 1}{2\cdot 2\cdot 2} =\frac{1}{8}.\]

Então:

\[P(A)=1-P(A^c)=1-\left(\frac12\right)^3=1-\frac18.\]

Escreva $1$ com denominador $8$:

\[1=\frac{8}{8}.\]

Subtraia:

\[1-\frac18=\frac{8}{8}-\frac{1}{8}=\frac{7}{8}.\]

Converta para decimal:

\[\frac{7}{8}=0{,}875.\]

Logo,

\[P(A)=1-P(A^c)=1-\left(\frac12\right)^3 =1-\frac18=\frac78=0{,}875.\]

Exemplo C — probabilidade de “todas caras” em $n$ lançamentos

(1) Argumento por contagem de sequências (como no enunciado)

Em $n$ lançamentos, existem $2^n$ sequências possíveis (cada lançamento tem 2 resultados). A sequência “todas caras” é única: “$CCCC\ldots C$”. Portanto:

\[P(\text{todas caras})=\frac{1}{2^n}=\left(\frac12\right)^n.\]

(2) Argumento por independência (produto)

Seja $C_i={\text{cara no lançamento }i}$. Então:

\[P(\text{todas caras}) =P(C_1\cap C_2\cap\cdots\cap C_n).\]

Como os lançamentos são independentes:

\[P(C_1\cap\cdots\cap C_n)=\prod_{i=1}^{n}P(C_i).\]

E, para moeda justa, $P(C_i)=\frac12$ para todo $i$, logo:

\[P(\text{todas caras})=\prod_{i=1}^{n}\frac12=\left(\frac12\right)^n.\]

Por exemplo, em $n=10$:

\[\left(\frac12\right)^{10}=\frac{1}{2^{10}}.\]

Calcule $2^{10}$:

\[2^{10}=2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2\cdot 2.\]

Agrupe como $(2^5)(2^5)$:

\[2^{10}=(2^5)(2^5)=32\cdot 32=1024.\]

Então:

\[\left(\frac12\right)^{10}=\frac{1}{1024}.\]

Em decimal:

\[\frac{1}{1024}=0{,}0009765625\approx 0{,}0009766.\]

5) Fenômeno observado: por que a frequência “tende” a $1/2$, mas não fica exatamente $1/2$?

Considere a proporção amostral de caras:

\[\hat p=\frac{X}{n}.\]

Valor esperado e variância

Para $X\sim \text{Bin}(n,\tfrac12)$:

\[\mathbb{E}[X]=np=\frac{n}{2}, \qquad \mathrm{Var}(X)=np(1-p)=n\cdot\frac12\cdot\frac12=\frac{n}{4}.\]

Então:

\[\mathbb{E}[\hat p]=\mathbb{E}\!\left[\frac{X}{n}\right] =\frac{1}{n}\mathbb{E}[X]=\frac12,\] \[\mathrm{Var}(\hat p)=\mathrm{Var}\!\left(\frac{X}{n}\right) =\frac{1}{n^2}\mathrm{Var}(X)=\frac{1}{n^2}\cdot\frac{n}{4} =\frac{1}{4n}.\]

Logo o desvio-padrão de $\hat p$ é

\[\mathrm{sd}(\hat p)=\sqrt{\frac{1}{4n}}=\frac{1}{2\sqrt{n}}.\]

Leitura estatística: a “distância típica” de $\hat p$ até $1/2$ é da ordem de $1/\sqrt{n}$. Ou seja, conforme $n$ cresce, a proporção se concentra em torno de $0{,}5$, mas sempre com flutuações.


6) Lei dos Grandes Números (LGN): onde entra?

LGN fraca (convergência em probabilidade)

\[\hat p_n \xrightarrow{P} \frac12 \quad \text{quando } n\to\infty.\]

Isto significa:

\[\forall\,\varepsilon>0,\quad P\!\left(\left|\hat p_n-\frac12\right|>\varepsilon\right)\to 0.\]

LGN forte (quase certamente)

\[\hat p_n \xrightarrow{a.s.} \frac12.\]

Ou seja, com probabilidade 1, a sequência de médias amostrais de fato converge para $1/2$.

Leitura prática: quanto mais você lança, mais a frequência de caras “gruda” em torno de 50%.


7) Uma demonstração curta “de lousa” (via Chebyshev)

Primeiro, calcule a variância de $\hat p_n$.

Como $X_i$ são independentes:

\[\mathrm{Var}\!\left(\sum_{i=1}^{n}X_i\right) =\sum_{i=1}^{n}\mathrm{Var}(X_i) =n\cdot\frac14=\frac{n}{4}.\]

Logo,

\[\mathrm{Var}(\hat p_n) =\mathrm{Var}\!\left(\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}X_i\right) =\frac{1}{n^2}\mathrm{Var}\!\left(\sum_{i=1}^{n}X_i\right) =\frac{1}{n^2}\cdot\frac{n}{4} =\frac{1}{4n}.\]

Agora, pela desigualdade de Chebyshev:

\[P\!\left(\left|\hat p_n-\mathbb{E}[\hat p_n]\right|\ge\varepsilon\right) \le \frac{\mathrm{Var}(\hat p_n)}{\varepsilon^2}.\]

Mas $\mathbb{E}[\hat p_n]=1/2$. Então:

\[P\!\left(\left|\hat p_n-\frac12\right|\ge\varepsilon\right) \le \frac{1}{4n\varepsilon^2}\xrightarrow[n\to\infty]{}0.\]

Isso já prova a LGN fraca aqui.


8) Por que isso NÃO contradiz sequências longas?

Sequências longas (runs) são eventos “locais” (padrões consecutivos).

A LGN é sobre um evento “global”: o comportamento da média $\hat p_n$.

Você pode ter uma sequência de, digamos, 15 caras seguidas e ainda assim, ao longo de milhares de lançamentos, a proporção total de caras ficar muito perto de $0{,}5$. A LGN não diz “não haverá runs”; ela diz “o saldo médio estabiliza”.

Uma forma de ver a coexistência:


9) Por que aparecem “sequências” (várias caras seguidas)?

Mesmo com independência, sequências longas não são anomalia: elas fazem parte da variabilidade natural.

Importante: independência significa

\[P(\text{cara no próximo}\mid \text{muitas caras antes}) =P(\text{cara})=\frac12.\]

Ou seja, após 5 caras seguidas, a chance de cara continua $1/2$.

A intuição de que “agora tem que vir coroa” é a falácia do jogador.


10) (Curiosidade) “Dar exatamente 50% de caras” não é tão provável quanto parece

Se $X\sim \text{Bin}(n,\tfrac12)$, então

\[P(X=k)=\frac{\binom{n}{k}}{2^n}.\]

Para $n$ par, a probabilidade de empatar ($X=n/2$) é

\[P\!\left(X=\frac{n}{2}\right)=\frac{\binom{n}{n/2}}{2^n} \approx \sqrt{\frac{2}{\pi n}} \quad \text{(aprox. normal / Stirling)}.\]

Ex.: $n=100$:

\[P(X=50)\approx \sqrt{\frac{2}{\pi\cdot 100}} \approx 0{,}0798,\]

ou seja, ~8% apenas. “Perto de 50” é comum; “exatamente 50” nem tanto.


11) Sequências longas (“runs”) são esperadas: o maior bloco cresce como $\log_2 n$

Uma heurística clássica:

o número “esperado” de ocorrências de uma sequência de $k$ caras em $n$ lançamentos é da ordem de

\[\approx \frac{n}{2^k}.\]

Quando $\frac{n}{2^k}\approx 1$, você “começa a esperar” ver ao menos uma vez:

\[2^k\approx n \;\Rightarrow\; k\approx \log_2 n.\]

Exemplos:

Moral: runs longos não indicam “viciada” automaticamente.


12) Probabilidade de sair 100 caras seguidas (em 100 lançamentos)

Existe exatamente 1 sequência “$CCCC\ldots C$” entre as $2^{100}$ sequências possíveis de 100 lançamentos. Logo,

\[P(100\ \text{caras em 100 lançamentos}) =\left(\frac12\right)^{100} =\frac{1}{2^{100}}.\]

Como

\[2^{100}=1267650600228229401496703205376,\]

temos

\[P=\frac{1}{1267650600228229401496703205376} \approx 7{,}8886\times 10^{-31}.\]

Observação importante: se você lançar para sempre, a probabilidade de em algum momento aparecer uma sequência de 100 caras é 1 (quase certamente). O que é gigantesco é o tempo de espera típico.


13) “Tentando sem parar”: tempo esperado até aparecer uma sequência de 100 caras (sem reiniciar)

Defina $T$ = número de lançamentos até ocorrer pela primeira vez uma sequência de $k=100$ caras consecutivas.

Para moeda justa, um resultado clássico:

\[\mathbb{E}[T]=2^{k+1}-2.\]

Para $k=100$:

\[\mathbb{E}[T]=2^{101}-2.\]

Como

\[2^{101}=2535301200456458802993406410752,\]

segue:

\[\mathbb{E}[T]=2535301200456458802993406410750 \approx 2{,}5353\times 10^{30}\ \text{lançamentos}.\]

Convertendo para tempo (depende da taxa de lançamentos)

Se você faz $r$ lançamentos por segundo, então

\[\mathbb{E}[\text{tempo}]=\frac{2^{101}-2}{r}\ \text{segundos}.\]

Usando $1$ ano $\approx 365{,}25\times 24\times 3600 = 31557600$ s:

\[\approx \frac{2{,}5353\times 10^{30}}{3{,}15576\times 10^7} \approx 8{,}0339\times 10^{22}\ \text{anos}.\]

Por que $\mathbb{E}[T]$ é da ordem de $2^{101}$ (e não $2^{100}$)?

Porque “sem parar” permite janelas sobrepostas e estados parciais (você pode estar com 37 caras seguidas “em andamento”). A teoria de tempos de espera para runs leva ao fator $\approx 2$ a mais:

\[\mathbb{E}[T]\approx 2\cdot 2^{100}.\]

Exemplo rápido: $k=10$

Se você lança sem parar e espera a primeira ocorrência de $k=10$ caras consecutivas:

\[\mathbb{E}[T]=2^{11}-2=2048-2=2046\ \text{lançamentos}.\]

Isso é uma forma elegante de ver “o preço” de exigir padrão muito específico.


14) (Mais avançada) Lei do Arco-Seno: “ficar na frente” costuma ser extremo

Considere o passeio aleatório

\[S_n=\#\text{caras}-\#\text{coroas}.\]

Um fato contraintuitivo: a fração do tempo em que $S_n>0$ (mais caras do que coroas) tende a ter distribuição em “U” (muito perto de 0% ou 100% é mais provável do que perto de 50%). Isso é a lei do arco-seno para passeios aleatórios.

É um ótimo antídoto contra intuições lineares.


Escrito em 08/01/2026